sábado, 5 de maio de 2018

T1 N° 870 : A DIVINA COMÉDIA

INFERNO
CANTO XVIII
Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia ou fraude. No primeiro compartimento são punidos com açoites pela mão de demônios os alcoviteiros; e entre eles Dante reconhece Venedico Caccianemico e Jasão. No segundo jazem em esterco os aduladores e as mulheres lisonjeiras, entre outros, Alessio Interminelli, de Lucca e Taís.
TEM o inferno, de rocha construído,
De férrea cor, de muro igual cercado
3 Um lugar: Malebolge o nome havido.
Lá no centro do plaino inficionado
Se escancara grão poço, amplo e profundo:
6 Direi a compostura em tempo asado.
Espaço em torno estende-se rotundo
Entre o poço e o penhasco pavoroso:
9 Reparte-se em dez cavas o seu fundo.
Qual de fossos dobrados, cauteloso,
Se apercebendo, o alcáçar se assegura
12 Dos assaltos de imigo poderoso:
De abismos tais o aspecto se afigura.
Como da levadiça ponte entrada,
15 Aos de fora, do mundo na cintura,
Assim, do val no fundo começada,
Cada cava uma rocha atravessava
18 Em arco, para o poço concentrada.
De nós o monstro aqui se descargava:
À sestra mão seguiu logo o poeta,
21 E eu de perto fiel o acompanhava.
Novo tormento à destra me inquieta,
Novos algozes vejo, novas dores,
24 De que a primeira cava era repleta.
Stão lá no fundo nus os pecadores:
Do meio contra nós muitos caminham,
27 Outros conosco, em passos já maiores.
Em Roma, assim, às turbas, que se apinham
Do jubileu no tempo, sobre a ponte
30 Se abriu aos que iam trânsito e aos que vinham:
De um lado andavam, os que tendo em fronte
O castelo, a S. Pedro se endereçam,
33 E do outro lado os que iam para o monte.
Daqui, dali nas bordas, os apressam
Cornígeros demônios, açoitando
36 Com grandes azorragues, que não cessam,
Como aos golpes primeiros cada bando
Se apressa! Como cada qual evita
39 Que se repita o estímulo execrando!
Nesse andar minha vista num se fita,
Da parte oposta vindo, e logo eu disse:
42 — “Hei conhecido esta figura aflita”. —
Atentei mais, por que melhor o visse;
Deteve-se comigo o doce Guia
45 E deu que atrás o passo eu dirigisse.
Aos olhos esquivar-se-me queria,
Os seus baixando; mas foi vão o intento.
48 —“Tu, que te curvas, já te hei visto um dia.
“Se as feições não mudou-te o passamento
Venedico tu és Caccianemico.
51 Por que trato padeces tão cruento?” —
— “De mau grado o que exiges significo;
Mas cedo ao claro som dessa loquela,
54 Que à memória me traz o mundo inico.
“Eu fui aquele, que Ghisola bela
Do Marquês entreguei ao vil desejo:
57 Ora a verdade a minha voz revela.
“Comigo de Bolonha muitos vejo;
Com tantos nesta cava choro e peno,
60 Que a menos lá no mundo dá-se ensejo.
“De dizer sipa entre o Savena e o Reno,
Se a prova queres, lembra-te somente
63 De que em nós da avareza influi veneno”. —
Mas um demônio o atalhou. Furente,
Disse tangendo: — “Ó rufião, avante!
66 Mulher não há que vendas impudente!” —
Ao Mestre me tornei; — pouco distante
Era um rochedo, a que nos acercamos;
69 Da riba se elevava pra diante.
Assaz ligeiramente nos alçamos;
Fomos pela fragura à mão direita
72 E o eterno recinto assim deixamos.
Chegados onde a curva estava feita
Para passagem dar aos fustigados,
75 O sábio Guia disse: — “A face espreita
“Agora desses outros malfadados,
Em que ainda atender não conseguiste,
78 Porque não stavam para nós voltados”. —

Da antiga ponte divisamos triste,
Longa fileira: contra nós andava.
81 Cruel açoite em flagelar persiste.
Virgílio, quando eu nada perguntava,
— “Repara bem” — me diz — “na sombra altiva,
84 A quem pranto de dor faces não lava.
“De Rei conserva a majestade viva!
É Jasão: conquistou por força e manha
87 O velocino em Colcos fera e esquiva.
“A Lenos foi, depois que horrenda sanha
Feminil aos varões cortara a vida,
90 Nenhum poupando aquela fúria estranha.
“Ali, de amor no enlevo embevecida,
Hipsífile enganou, que já iludira
93 Suas irmãs, de compaixão movida.
“Grávida e só deixou-a: atroz mentira
Mereceu-lhe dos tratos a amargura.
96 Vingada está Medéia, a quem traíra.
“Quem perjurou como ele, há pena dura.
Do val primeiro baste o que sabemos
99 E de quantos aqui sofrem tortura”. —
Numa estreita vereda já nos vemos,
Que co’a borda segunda se cruzava,
102 Sustentando outra ponte, a que tendemos.
Turba dali ouvimos, que chorava
De outra cava no encerro e que, assoprando,
105 Com suas próprias mãos se arrepelava.
Estava-lhe as paredes incrustando
A exalação que sobe e ali se prende.
108 Ferindo o olfato e a vista horrorizando.
E tanto pelo abismo a cava estende,
Que só divisa quando está no fundo
111 Quem lá do cimo, perscrutando, atende.
Subimo-nos: então no fosso imundo
Vi gente em tal cloaca mergulhada,
114 Que a sentina figura ser do mundo.
Enquanto olhava ali tão conspurcada
Cara notei, que distinguir não pude,
117 Se padre ou leigo fora a alma danada.
— “Dizei por que tua vista não se mude
De mim, a imundos tantos desatenta!” —
120 Gritou-me. — E eu: — “Se a mente não me ilude,
“Te vi sem cabeleira tão nojenta.
Alessio Interminei de Lucca hás sido:
123 Em ti por isso a vista é mais atenta”. —
Ferindo a face, disse-me o descrido:
— “Aqui lisonjas vis me submergiram;
126 Língua indefessa em bajular hei tido”. —
Logo depois que vozes tais se ouviram,
Meu Guia: — “Olhos dirige um pouco avante,
129 E as feições me declara se atingiram
“De mulher desgrenhada e petulante
Que de unhas asquerosas se lacera,
132 Mudando de postura a cada instante.
“É Taís, a meretriz, que respondera
Ao namorado seu, quando dizia:
— “Te devo gratidão?” — “Muita e sincera!” —
136 Mas vamos: temos visto em demasia”. —
NOTAS DO CANTO XVIII
[1] 50. Venedico Caccianemico, bolonhês, que induziu sua irmã Ghisola a entregar-se a Obizzo d’Este, marquês de Ferrara.
[2] 61. Dizer sipa etc., palavra do dialeto bolonhês que vale por sim ou seja.
[3] 86. Jasão, chefe dos argonautas, que, auxiliado por Medéia, que ele seduziu e depois enganou, conquistou em Cólquida o velocino de ouro.
[4] 9 2. Hipsífiles, enganada por Jasão.
[5] 122. Aléssio Interminei, patrício de Lucca.
[6] 133. Taís, meretriz, personagem de uma peça de Terêncio.


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